Dystopicon: um jogo onde assistir TV é a única maneira de sobreviver

Dystopicon
Ano: 2026
Gênero: Simulação
Avaliação: 7/10 1 1

Imagine viver em uma sociedade onde os robôs tomaram praticamente todos os empregos, o governo controla a população e você recebe uma casa para morar, mas precisa passar o dia assistindo televisão para conseguir dinheiro. Parece uma ideia absurda, mas é exatamente essa a premissa de Dystopicon, um point and click de gerenciamento de tempo desenvolvido pela Palitroque. Em vez de colocar o jogador para enfrentar inimigos, explorar grandes mapas ou construir cidades, o jogo transforma uma rotina aparentemente banal em uma experiência de sobrevivência: assistir TV, comer, dormir, manter a casa em ordem, controlar sua saúde, sua fome, seu conforto e sua diversão, enquanto tenta descobrir até onde pode ir sem chamar a atenção do governo.

Depois de jogar, ficou claro para mim que Dystopicon não está interessado em ser apenas um simulador de vida. A rotina é justamente a ferramenta utilizada pelo jogo para construir sua sátira. Você começa em um apartamento pequeno, recebe instruções sobre como deve se comportar e descobre rapidamente que até as coisas mais simples da vida estão sob controle da chamada Trindade, o governo que administra aquela sociedade. Para ganhar dinheiro, você assiste aos canais disponíveis na televisão. Política paga uma quantia, religião paga outra, entretenimento paga menos, e novos canais vão sendo liberados conforme os dias passam. Ao mesmo tempo, suas necessidades vão diminuindo e você precisa encontrar maneiras de manter o personagem vivo e funcional. É uma ideia estranha, desconfortável e, principalmente, diferente.

Uma rotina que rapidamente se transforma em uma distopia

O início de Dystopicon é propositalmente simples. Você acorda no apartamento, começa a receber visitantes na porta e precisa entender como aquela sociedade funciona. Logo fica claro que você não está exatamente livre. Para sair do quarto e explorar outras áreas, por exemplo, é necessária uma autorização do governo que custa 500 unidades da moeda do jogo. Isso imediatamente estabelece um objetivo, mas também mostra a situação absurda em que o personagem está preso: para conseguir dinheiro, ele precisa ficar em casa assistindo televisão, enquanto para sair de casa precisa juntar uma quantia que demora bastante para conseguir.

E é aí que o jogo começa a funcionar melhor. Assistir TV não é simplesmente apertar um botão para ganhar dinheiro. Cada canal tem uma função diferente e afeta a rotina do personagem. Alguns rendem mais dinheiro, outros aumentam a diversão, enquanto determinadas necessidades precisam ser resolvidas utilizando os objetos espalhados pelo apartamento. Você pode abrir a geladeira para comer, utilizar o chuveiro para melhorar algumas condições, dormir para recuperar conforto e interagir com diversos objetos que aparecem no cenário. Aos poucos, aquela sala aparentemente simples começa a esconder pequenas possibilidades de interação.

Durante meu teste, comecei simplesmente escolhendo o canal que pagava mais, mas rapidamente percebi que não adianta pensar apenas no dinheiro. Se eu passasse tempo demais assistindo ao canal religioso, por exemplo, conseguia juntar algumas moedas, mas minha diversão começava a cair. Então era necessário trocar para entretenimento. A fome também diminuía e exigia uma visita à geladeira, enquanto o conforto precisava ser recuperado dormindo ou utilizando outros recursos do apartamento. É uma espécie de jogo de equilíbrio, em que cada minuto gasto em uma atividade representa menos tempo cuidando de outra necessidade.

O interessante é que o governo está sempre presente. Boletins diários aparecem na televisão, pessoas batem à porta, policiais fazem rondas e a administração do prédio cobra determinados comportamentos. Em certo momento, recebi até uma espécie de exame de afinidade política, no qual precisava responder qual seria o lema correto do Estado. Em outro, fui questionado sobre meus vizinhos. Também descobri que meu comportamento era avaliado por uma espécie de classificação cidadã, que precisava permanecer alta para que eu pudesse ser considerado um bom cidadão.

O apartamento esconde muito mais do que parece

Embora a maior parte da experiência aconteça dentro de um único apartamento, Dystopicon tenta transformar esse espaço em um pequeno quebra-cabeça. Existem objetos escondidos, passagens, túneis e outros cômodos que podem ser descobertos conforme você experimenta as ferramentas disponíveis. Em determinado momento encontrei uma chave de fenda e comecei a testar onde ela poderia ser utilizada. Isso me levou para outra área do prédio, onde encontrei lixo, comida reciclada, uma televisão ligada e situações bastante estranhas.

Essa exploração é, para mim, uma das partes mais interessantes do jogo. Dystopicon não fica o tempo inteiro explicando o que você deve fazer. Muitas vezes é preciso observar o cenário, passar o cursor sobre os objetos e experimentar interações para descobrir alguma coisa. Foi assim que encontrei uma central de monitoramento e percebi que o governo aparentemente acompanhava o comportamento dos moradores. Também encontrei diários e boletins que ajudam a construir aquele mundo sem precisar transformar tudo em uma longa exposição narrativa.

O problema é que essa mesma característica pode gerar alguma confusão. O jogo não deixa sempre evidente o que pode ou não ser interagido, e como estamos diante de uma experiência point and click, passar o cursor pelos objetos é uma parte importante da investigação. É justamente por isso que eu não recomendaria jogar Dystopicon exclusivamente pela tela sensível ao toque em um portátil. No Legion Go, o touch funciona, mas em diversos momentos senti falta da precisão de um mouse para descobrir o que poderia ser clicado. O trackpad do próprio aparelho resolve a situação e, na minha opinião, é a melhor maneira de jogar no portátil sem precisar carregar um mouse externo.

O humor é tão absurdo quanto a situação

Uma das características que mais chamam atenção é o humor ácido. Dystopicon apresenta situações extremamente pesadas, mas frequentemente as trata de maneira absurda, quase burocrática. O governo pode anunciar acontecimentos terríveis na televisão utilizando uma linguagem completamente fria, enquanto ao mesmo tempo oferece alguma recompensa ou recomenda que o cidadão permaneça em casa. Essa mistura de autoritarismo, propaganda e situações absurdas é claramente parte da identidade do jogo.

Durante minha partida, por exemplo, descobri que o governo pagava dinheiro para que eu matasse ratos que apareciam no apartamento. Em outro momento, encontrei uma situação envolvendo um vizinho desaparecido. Também descobri que era possível acessar um canal pornográfico, que aumentava rapidamente minha diversão, mas não oferecia nenhuma remuneração. A televisão, portanto, vai muito além de ser uma simples fonte de renda: ela é uma ferramenta de propaganda, entretenimento e controle social.

O jogo também não tem medo de abordar assuntos mais pesados. Drogas, sexo, violência, repressão política, morte e até suicídio fazem parte desse universo. A própria descrição oficial alerta para esse conteúdo, além de indicar que o jogo trabalha com a possibilidade de múltiplos finais.

E então eu morri sem entender exatamente por quê

Um dos momentos mais curiosos da minha partida aconteceu justamente no final. Depois de aproximadamente 14 dias dentro do jogo, mantendo uma classificação cidadã relativamente boa e tentando seguir as regras, recebi uma mensagem informando que a Trindade havia determinado minha morte. O jogo encerrou aquela tentativa e apresentou aquele resultado como um dos possíveis finais.

Foi uma situação que me pegou completamente de surpresa. Eu estava fazendo o possível para manter fome, saúde, conforto e diversão em níveis aceitáveis, evitando problemas com o governo e tentando juntar dinheiro. Mesmo assim, alguma coisa aconteceu e meu personagem morreu. E, em vez de considerar isso simplesmente uma falha frustrante, achei interessante porque o jogo deixa claro que aquilo não era necessariamente o fim da experiência. Era apenas um dos finais possíveis.

Essa estrutura é importante para entender Dystopicon. A ideia não parece ser jogar uma única vez e descobrir tudo. Existem diferentes caminhos, decisões e segredos espalhados pelo apartamento e pelos acontecimentos diários. Você pode tentar ser um cidadão obediente ou começar a investigar aquilo que está acontecendo ao seu redor. Pode seguir as regras ou tentar descobrir o que existe por trás delas. E algumas dessas decisões podem levar a resultados completamente diferentes.

A própria recepção do jogo destaca justamente essa característica. Dystopicon atualmente possui 87% de avaliações positivas entre os usuários da Steam, e os marcadores mais associados ao jogo incluem “vários finais”, “escolhas importantes”, “sátira”, “humor negro” e “point and click”.

Uma ideia muito boa, mas com ritmo bastante particular

Aqui está provavelmente a maior questão de Dystopicon: a ideia é muito melhor do que a variedade da rotina. Depois que você entende o funcionamento básico, boa parte da experiência passa a ser repetir algumas atividades enquanto espera novos acontecimentos. Assistir televisão, comer, dormir, cuidar do apartamento, conversar com quem aparece na porta e investigar algum objeto novo. Existe uma intenção clara por trás disso, porque a própria repetição ajuda a transmitir a sensação de viver preso em uma sociedade controlada, mas isso não significa que a repetição deixe de ser repetição.

Foi justamente essa característica que dividiu bastante a crítica. Algumas análises elogiaram a proposta e a maneira como as mecânicas ajudam a construir a sátira, enquanto outras consideraram o ritmo lento e a pouca variedade um problema. A crítica especializada no Metacritic, por exemplo, atualmente apresenta uma média de 49/100, com avaliações destacando a ideia interessante, mas apontando que a execução é limitada e que alguns sistemas podem parecer pouco significativos ou aleatórios.

Ao mesmo tempo, existem análises bem mais positivas. A recepção dos jogadores na Steam é consideravelmente melhor do que a média da crítica, e alguns reviews destacam justamente a combinação entre gerenciamento, exploração, escolhas e múltiplos finais. Uma análise recente chegou a considerar o ciclo de gerenciamento de tempo bastante envolvente justamente porque cada nova tentativa pode revelar consequências diferentes.

E acho que essa diferença explica muito bem o jogo. Se você entrar esperando um simulador cheio de sistemas profundos ou uma aventura tradicional, provavelmente vai se frustrar. Dystopicon é muito mais próximo de uma experiência narrativa interativa em que a mecânica de gerenciamento existe para colocar você dentro daquela rotina absurda. O objetivo não é necessariamente tornar cada minuto emocionante, mas fazer você sentir como seria viver em uma sociedade onde até assistir televisão virou uma obrigação.

Dystopicon no Legion Go

No Legion Go, o jogo apresenta uma situação curiosa. Ele funciona tecnicamente muito bem e, como não é uma experiência pesada, não existe nenhuma preocupação relevante com desempenho. Durante meu teste, utilizei o limite de 60 FPS, modo de energia equilibrado, ventilação inteligente, brilho mínimo e volume em 50%, tentando simular uma situação real de uso longe da tomada.

O problema é novamente a ausência de suporte nativo ao gamepad. Os botões do Legion Go não têm função dentro do jogo, então não dá para simplesmente pegar o aparelho e jogar como se fosse um título desenvolvido pensando em portáteis. O touchscreen funciona, mas, como Dystopicon é essencialmente um point and click, a precisão do cursor é importante para encontrar objetos e identificar elementos interativos. Por isso, o trackpad do Legion Go acaba sendo muito mais útil do que a tela em determinados momentos.

Por outro lado, o consumo de bateria foi bastante razoável para o tipo de experiência. Comecei com aproximadamente 80% de carga e, depois de cerca de 15 minutos, estava em 65%, o que representa um consumo próximo de 1% por minuto nas condições do teste. Mantendo esse ritmo, estamos falando de algo próximo de uma hora e meia de jogo por carga completa. Como o aparelho estava configurado para uma experiência econômica, considero um resultado coerente para uma experiência desse tipo, embora não exista qualquer opção gráfica no jogo para fazermos ajustes adicionais.

Vale o seu tempo

Dystopicon é um daqueles jogos que eu recomendaria principalmente para quem está procurando alguma coisa diferente. A ideia de transformar assistir televisão em trabalho, controlar necessidades básicas enquanto o governo monitora suas ações e descobrir aos poucos que existe muito mais acontecendo ao seu redor é criativa. O jogo tem personalidade e não parece estar tentando copiar uma fórmula tradicional de videogame. Ele quer criar uma situação desconfortável e absurda e fazer o jogador descobrir sozinho até onde aquela sociedade pode chegar.

O problema é que essa proposta também limita bastante a experiência. A rotina é repetitiva, a exploração pode exigir bastante paciência e algumas interações não são tão claras quanto poderiam ser. No Legion Go, a falta de suporte ao gamepad é outro ponto negativo, embora o trackpad resolva boa parte da situação. E existe uma diferença importante entre achar a ideia interessante e realmente querer passar muitas horas dentro dela.

No meu caso, gostei mais da proposta do que da execução. Durante a partida fiquei curioso para descobrir o que havia nos outros cômodos, o que aconteceria com os vizinhos, quais eram as consequências das minhas escolhas e por que, afinal, meu personagem acabou morto depois de 14 dias. O fato de eu ter terminado uma partida já pensando que aquele era apenas um dos finais mostra que o jogo conseguiu despertar minha curiosidade. Ao mesmo tempo, não senti vontade de passar horas repetindo a mesma rotina imediatamente depois de terminar.

Dystopicon não é um jogo para quem procura ação ou progressão constante. É uma experiência de investigação, gerenciamento e descoberta, com uma boa dose de humor negro e crítica social. Para quem gosta de jogos como point and click, simuladores estranhos, experiências narrativas e títulos que escondem segredos em interações aparentemente banais, existe bastante coisa interessante aqui.

No preço atual de cerca de R$ 26,50 na Steam brasileira, acredito que ele faça sentido principalmente para esse público específico. É uma experiência pequena, diferente e com múltiplos finais, e sua maior qualidade é justamente fazer você querer descobrir o que existe por trás daquela televisão que, no começo, parecia ser apenas uma maneira absurda de ganhar dinheiro.

Por Leo "Blade"

Sou o Leo, geralmente jogo com o nick blade95. Sou apaixonado por jogos de FPS e amo montar PC Gamer! Aqui no Steamaníacos cuido de tudo sobre Hardware, review, preview, testes e novidades para o nosso mundo gamer!

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