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Jogos de Estratégia

Existem jogos que precisam de gráficos impressionantes, uma história elaborada ou dezenas de mecânicas diferentes para conseguir prender nossa atenção. Orc Incremental vai por um caminho completamente diferente. A proposta é extremamente simples: você começa com um orc, enfrenta inimigos, coleta ouro, compra melhorias, recruta novas unidades e tenta avançar cada vez mais pelo mapa. Quando chega a um ponto em que seu exército não consegue mais progredir, você pode voltar ao começo por meio de um sistema de renascimento que transforma parte do progresso perdido em melhorias permanentes. É uma fórmula bastante conhecida entre jogos incrementais e idle games, mas Orc Incremental consegue acrescentar elementos suficientes para que, depois de alguns minutos, aquela ideia aparentemente simples comece a ficar muito mais interessante do que eu esperava.

A primeira coisa que me chamou atenção foi justamente o visual. Orc Incremental parece uma espécie de homenagem aos antigos jogos de estratégia da Blizzard, principalmente pela maneira como os personagens são apresentados e pela estética geral do campo de batalha. Existe aquela sensação de estar jogando algo inspirado nos primeiros Warcraft, só que reduzido à sua essência: temos os orcs, humanos, criaturas fantásticas, construções e batalhas acontecendo em uma perspectiva que imediatamente remete aos clássicos. Não é um jogo que tenta impressionar pela quantidade de polígonos ou por efeitos modernos, e acho que isso funciona muito bem. Os personagens têm personalidade, os inimigos são visualmente diferentes e o conjunto possui uma identidade bastante clara. É um daqueles casos em que a escolha por uma estética mais simples acaba sendo uma vantagem, porque combina perfeitamente com a proposta incremental do jogo.

Um exército que luta sozinho

O funcionamento básico de Orc Incremental é bastante fácil de entender. Você monta seu exército, coloca as unidades no campo de batalha e elas lutam automaticamente. Seu trabalho não é controlar cada personagem individualmente, mas decidir quais unidades fazem parte da formação, onde elas serão posicionadas, quais melhorias serão compradas e quais habilidades serão utilizadas para ajudar o grupo durante os confrontos mais difíceis. No começo, isso pode parecer simples demais, principalmente porque você começa praticamente com um único guerreiro, mas o sistema vai crescendo rapidamente. Durante meu gameplay, comecei com um orc e, depois de algumas compras e desbloqueios, já estava combinando guerreiros, xamãs, totens e unidades de suporte.

Essa evolução é uma das coisas que mais gostei no jogo. As unidades possuem diferentes custos de poder, atributos e funções, e isso começa a fazer diferença conforme o espaço disponível no seu exército aumenta. Um guerreiro orc tem bastante vida e funciona bem na linha de frente, enquanto o xamã possui alcance maior e pode atacar de uma posição mais protegida. Depois aparecem unidades como o médico bruxo, que acrescenta uma função completamente diferente à formação. Também existem totens, que não entram necessariamente na batalha como uma unidade convencional, mas fornecem efeitos passivos que podem alterar o comportamento do seu exército. O resultado é que, mesmo com um sistema de combate automático, existe uma camada de estratégia que vai crescendo junto com a progressão.

O sistema de cartas ajuda bastante nesse processo. Ao gastar recursos, você pode receber novas unidades ou totens, e nem sempre aquilo que aparece é exatamente o que você gostaria de usar. Durante minha partida, por exemplo, encontrei dois totens cujos efeitos estavam relacionados à perda de vida das unidades. Não gostei particularmente da mecânica naquele momento, mas decidi experimentar um deles para entender como funcionava. Depois descobri que os totens podem se acumular e comecei a pensar melhor em como aproveitar esses efeitos dentro da formação. É uma estratégia relativamente simples, mas existe uma satisfação interessante em testar uma combinação, observar o resultado na batalha e depois decidir se vale a pena continuar investindo nela ou mudar completamente de caminho.

Quanto mais você joga, mais coisas aparecem

O grande mérito de Orc Incremental está na quantidade de sistemas que vão sendo apresentados ao jogador. Durante os meus quase 40 minutos de gameplay, eu cheguei apenas a uma pequena parte da progressão disponível. Existem melhorias para aumentar vida, dano, velocidade de ataque e capacidade do exército, além de novos personagens, totens, habilidades especiais e unidades de raridade superior. Em determinado momento desbloqueei o médico bruxo e, depois, comecei a encontrar unidades raras que eram consideravelmente mais fortes do que as versões comuns. Também aparecem desbloqueios como a catapulta e outras unidades que eu sequer cheguei a experimentar durante o teste.

Isso cria uma sensação muito boa de progressão porque sempre existe alguma coisa mais à frente. Você está olhando para uma árvore enorme de melhorias e sabe que ainda existem sistemas que não viu, unidades que não utilizou e habilidades que ainda não conseguiu desbloquear. O jogo também mostra unidades ainda mais poderosas e até criaturas como dragões e chefes mais avançados, então fica bastante claro que aquilo que estamos fazendo nos primeiros níveis é apenas o começo. Para um jogo incremental, essa sensação é fundamental: se o jogador não acreditar que existe algo interessante depois do próximo desbloqueio, o ciclo rapidamente perde a graça. Orc Incremental consegue manter essa curiosidade durante uma boa parte da experiência.

E então aparece a Elfa Amaldiçoada, que apresenta uma das mecânicas mais importantes do jogo: o Renascimento Sombrio. Quando você decide renascer, perde o ouro, as melhorias, as unidades e os totens acumulados naquela partida, mas recebe Podridão, que pode ser utilizada para comprar melhorias permanentes. É o clássico sistema de prestígio dos jogos incrementais, mas aqui ele funciona muito bem porque muda completamente a maneira como você encara a progressão. Em determinado momento, você percebe que continuar insistindo na mesma configuração não vai fazer seu exército avançar muito mais e que talvez seja melhor aceitar a perda de todo aquele progresso para voltar mais forte na próxima tentativa.

No meu gameplay, inclusive, eu inicialmente fiz um Renascimento Sombrio cedo demais para conseguir testar a mecânica, mas descobri que ainda não tinha Podridão suficiente para comprar uma melhoria realmente significativa. Mais tarde, depois de avançar novamente, consegui fazer o reset com uma quantidade maior e desbloquear um talento que permitia acessar unidades e totens de raridade superior. A partir daí, a segunda tentativa já começou de uma maneira diferente, com guerreiros e xamãs raros aparecendo entre as opções. É justamente esse tipo de mudança que torna o sistema interessante: você não está simplesmente começando tudo de novo, está começando novamente com uma vantagem que não existia antes.

Existe bastante espaço para montar seu exército

Quanto mais unidades são desbloqueadas, mais evidente fica que Orc Incremental quer que você experimente diferentes composições. No começo eu estava simplesmente colocando os guerreiros disponíveis e tentando aumentar seus atributos, mas depois comecei a combinar quatro ou cinco guerreiros com vários xamãs e uma unidade de suporte. Também experimentei dois totens simultaneamente e percebi que seus efeitos podiam ser acumulados. Nem todas as combinações me pareceram igualmente úteis, mas o simples fato de existir espaço para testar essas possibilidades já dá uma profundidade interessante ao sistema.

O problema é que essa liberdade também vem acompanhada de uma certa repetição. E isso é algo que precisa ser colocado na conta antes de comprar o jogo. Orc Incremental é repetitivo por natureza. Você passa bastante tempo repetindo batalhas, voltando para níveis anteriores para acumular ouro, comprando melhorias e tentando superar o ponto em que ficou preso. Depois faz um renascimento e repete parte desse processo novamente. Para quem gosta do gênero, essa repetição é justamente o motivo pelo qual o jogo é divertido. Para quem precisa de novidades constantes, provavelmente será um problema. Em alguns momentos do meu gameplay, eu já estava voltando várias vezes para os mesmos níveis simplesmente porque precisava acumular mais ouro para conseguir pagar pela próxima melhoria.

Também percebi que a progressão de preços pode ser bastante agressiva. Uma melhoria de velocidade de ataque que inicialmente custava pouco rapidamente passava a custar milhares de moedas. Isso cria momentos em que você precisa decidir se vale a pena gastar tudo em uma melhoria pequena ou guardar recursos para aumentar o tamanho do exército ou desbloquear uma unidade. Algumas das opiniões de jogadores seguem justamente nessa direção, apontando que determinadas melhorias produzem mudanças pequenas em relação ao custo. Eu não achei isso suficiente para comprometer a experiência, mas é uma característica que pode ficar mais evidente quanto mais tempo você jogar.

O som é provavelmente a parte mais fraca

Se o visual me agradou bastante, não posso dizer o mesmo da parte sonora. A trilha sonora é bastante básica, e os efeitos também são simples. Durante o gameplay, a sensação que tive foi de estar diante de uma versão muito mais modesta daqueles sons que encontramos nos primeiros Warcraft. Eles cumprem seu papel e combinam com a estética do jogo, mas não são exatamente o tipo de música ou efeito sonoro que vai ficar na sua cabeça depois que você fechar o jogo.

Isso não chega a atrapalhar porque Orc Incremental não depende da trilha sonora para criar tensão ou emoção. As batalhas são automáticas e acontecem continuamente, então talvez uma música extremamente elaborada nem fosse necessária. Ainda assim, considerando que o jogo pode ser jogado durante dezenas de horas, uma trilha mais variada e efeitos mais interessantes ajudariam bastante a diminuir a sensação de repetição durante as sessões mais longas.

E como ele funciona no Legion Go?

Aqui está uma das partes mais interessantes do meu teste. Orc Incremental não possui suporte nativo a gamepad, e isso fica evidente assim que você começa a jogar. Apertei os botões do Legion Go e eles simplesmente não faziam nada. Eu poderia ter utilizado a camada de compatibilidade do Steam para transformar os comandos, mas preferi não fazer isso porque estaria criando uma experiência que não corresponde ao suporte real oferecido pelo jogo.

A boa notícia é que o touchscreen funciona surpreendentemente bem. Durante praticamente todo o gameplay consegui jogar usando apenas a tela do Legion Go. Em alguns momentos utilizei o mousepad porque queria ler alguma informação antes de comprar uma melhoria, mas em nenhum momento precisei realmente conectar o teclado Bluetooth que estava disponível. Inclusive, existe uma maneira bastante confortável de jogar mantendo o dedo pressionado na tela, em vez de precisar tocar repetidamente para executar determinadas ações.

O maior problema aparece quando o jogo exige funções de mouse. Em determinado momento, desbloqueei uma habilidade especial que precisava ser acionada com o botão direito. Nesse ponto, tive que entrar nas configurações do Legion Go e mapear um dos botões traseiros como RMB. Depois de fazer isso, consegui utilizar a habilidade normalmente. Então minha conclusão é que Orc Incremental não é um jogo feito para gamepad, mas isso não significa que ele seja ruim no Legion Go. Ele é perfeitamente jogável pelo touchscreen, e para quem estiver disposto a configurar um botão para substituir o clique direito do mouse, a experiência fica bastante tranquila.

Na verdade, eu acho que seria relativamente simples para o desenvolvedor melhorar isso. O jogo poderia detectar que estamos utilizando uma tela sensível ao toque e, ao tocar em uma melhoria, primeiro apresentar as informações daquela habilidade antes de efetivamente comprá-la. Em alguns momentos, quando você está jogando pelo touch, é fácil acabar acionando alguma coisa sem conseguir ler exatamente o que ela faz. É um pequeno detalhe de interface, mas faria bastante diferença em um portátil.

A bateria surpreendeu positivamente

Também fiz questão de acompanhar o consumo de bateria durante todo o gameplay. Comecei com 98% de carga e, depois de quase 40 minutos de jogo, terminei com 58%. Parece bastante, mas existe uma informação importante: eu estava utilizando o Legion Go no modo de alto desempenho e com o brilho da tela no máximo. Ou seja, não estava tentando economizar bateria.

Durante o teste também ficou claro que Orc Incremental não exige muito da GPU. Por isso, acredito que, utilizando um perfil de energia mais econômico e reduzindo o brilho da tela, seja perfeitamente possível conseguir duas horas ou até três horas de gameplay longe da tomada. Isso torna o jogo particularmente interessante para o Legion Go, porque ele é exatamente o tipo de experiência que combina com uma sessão mais longa em um portátil. Você pode deixar o exército lutando, fazer algumas melhorias, voltar para a batalha e continuar progredindo sem precisar ficar preso a uma tomada.

Vale o seu tempo

Orc Incremental é um jogo muito mais interessante do que sua premissa inicial faz parecer. Ele começa de uma maneira extremamente simples, com um único orc enfrentando inimigos, mas aos poucos vai adicionando cartas, novas unidades, totens, raridades, habilidades, melhorias e um sistema de renascimento que transforma toda a progressão em um grande ciclo de evolução. Quando você percebe, já está pensando em qual unidade comprar, qual totem retirar da formação, quanto ouro guardar e qual melhoria será necessária para superar o próximo obstáculo.

É claro que ele não é para todo mundo. A repetição faz parte da experiência e pode se tornar cansativa para quem não gosta de jogos incrementais. Algumas melhorias possuem aumentos de preço bastante agressivos, nem todas as unidades parecem igualmente interessantes e a trilha sonora e os efeitos sonoros poderiam receber mais atenção. No Legion Go, também existe a limitação do suporte a controles: você vai sentir falta do mouse em alguns momentos e provavelmente precisará configurar um dos botões traseiros para funcionar como clique direito. Por outro lado, o touchscreen resolve muito bem a maior parte do problema e o baixo consumo de GPU faz dele um jogo bastante adequado para quem quer jogar longe da tomada.

E existe ainda um fator que pesa muito a favor: o preço. No momento da gravação, Orc Incremental custava cerca de R$ 21, com desconto de lançamento, e o preço normal era de R$ 24,99. Por esse valor, fica muito difícil exigir uma produção gigantesca. Estamos falando de um jogo barato, com uma quantidade enorme de progressão, muitas unidades para desbloquear, várias possibilidades de formação e potencial para dezenas de horas de jogo. É praticamente o preço de um ingresso de cinema para uma experiência que pode ficar instalada no seu PC ou Legion Go por muito tempo.

No final das contas, Orc Incremental é exatamente o tipo de jogo que você começa dizendo que vai jogar por alguns minutos e, quando percebe, está há horas tentando deixar seu exército mais forte. Se você gosta de incremental games, idle games, auto battlers e daquela sensação de progressão constante em que sempre existe alguma coisa nova para desbloquear, eu acho que vale bastante a pena dar uma chance. E no Legion Go ele funciona melhor do que eu esperava, principalmente se você estiver disposto a jogar pelo touchscreen.